Se esperança havia ainda de se estabelecer a verdadeira data da emancipação política de Irecê, bem como sua elevação a categoria de cidade, essa esperança foi para o brejo com a publicação do livro “A saga dos imigrantes, histórias de sucesso”, onde Joacy Nunes Dourado, atual prefeito de Irecê é apresentado como um dos maiores prefeitos que o município já teve, perdendo apenas para o ex-prefeito Adalberto Lélis. Se o Adalberto Lélis modificou a data de emancipação política de Irecê em troca de generosas páginas em um livro publicado por um certo empresário, agora então é que a data errada vai se solidificar graças aos rasgados elogios ao atual prefeito de Irecê. Como se sabe, o político é altamente sensível a elogios. Notadamente se faz referência à sua administração como prefeito, deputado, governador, presidente, etc. etc.
Um dia em conversa com Joacy, ele admitiu que a data de 31 de maio era a de restauração de Irecê como município e não a de emancipação. Mas, como fez questão de observar, não queria se meter nesta briga. Mas por que ele não queria se meter? Porque ele já tinha dado seus dados biográficos para um certo empresário e sabia que o livro “A saga dos imigrantes” na qual sua figura seria encaixada em “histórias de sucesso” já estava em andamento. Com esse exemplo e muitos outros vejo pesaroso que Irecê se tornou um lugar profundamente prosaico, paroquial, onde um arremedo de sociedade tenta manter aquele dinamismo tão característico que marcou Irecê em seu desenvolvimento.
Depois do surgimento das rádios Irecê FM, Caraíbas FM e Regional, de poetas dos mais diversos matizes, jornais bissextos como Veja o Sertão, Jornal de Notícias, Folha da Bahia, etc. a sociedade ireceense perdeu o hábito de raciocinar, essa atividade humana que é uma das mais difíceis de se praticar. E por que parou de raciocinar? Porque esses órgãos de comunicação já dão os fatos já comentados e analisados. Os locutores das rádios locais são os maiores sábios que a espécie humana já teve o privilégio de conhecer, pois eles sabem de tudo. Não há assunto ou área específica do conhecimento humano que eles não se metam a comentar e tirar conclusões. Há elogios, muito elogios. Tudo visando tirar alguma merreca do bolso dos incautos.
Mas, parodiando Raul Seixas, eu resolvi ser a mosca na sopa dessa gente. Durante anos desejei que surgisse no horizonte turvo de Irecê, um político que fosse antagonista de Adalberto Lélis, que tivesse a coragem de enfrentá-lo num debate. Quando Joacy foi eleito, confesso que alimentei grandes esperanças nesse sentido. Afinal, Joacy é parente de Teotônio Marques Dourado Filho, o primeiro prefeito de Irecê que foi responsável pela emancipação política do município. Seria o resgate da história do município e a colocação do nome da família Dourado no lugar que sempre lhe pertenceu. Mas, contra todas as previsões, Joacy recuou preferindo glorificar o nome da família Lélis, virando as costas para sua família. Joacy dera o nome de João José da Silva Dourado à rodoviária que construíra em seu primeiro mandato, dando-nos esperança que continuaria nesta linha, resgatando o nome daqueles que construíram a história do município de Irecê. Todavia, a história demonstra que um político só age quando há mobilização popular fazendo-lhe pressão.
As páginas elogiosas do livro “A saga dos imigrantes” paralisou seu raciocínio, engessou sua coragem, se é que a teve algum dia, aprisionou-o na confortável cela da auto-complacência, em suma, Joacy foi acuado convicto de que foi um grande prefeito.
E agora temos José Dourado das Virgens e o horizonte se define desolador como todos os outros que o antecederam. A data vai ser comemorada novamente de quando foi restabelecido o município e não quando foi criado. E soubemos que esta data agora passa a ser a oficial. Isso prova que nenhum membro da família Dourado chegou a se ombrear a Teotônio Marques Dourado Filho por sua coragem e determinação. Pela vontade de Joacy Nunes Dourado e José Dourado das Virgens, Irecê continuaria para sempre subordinado a Morro do Chapéu.
A propósito: teria algum deles a coragem de enfrentar um poderoso coronel como Francisco Dias Coelho? E logo depois Antonio de Souza Benta, após seu falecimento? O propósito deste blog é regatar a história desses bravos heróis que lutaram sem tréguas para emancipar Irecê politicamente. E essa história que alguns querem manter no esquecimento, é a que vamos contar.
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