sábado, 4 de junho de 2011

Irecê comemora mais uma vez a data errada e agora para sempre.


  A revisão da história do Brasil está em alta. Nada menos que três livros tratando do assunto estão na lista dos mais vendidos. Em primeiro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”; 2º “1822” e 3º “1808”. O Guia politicamente incorreto trata da derrubada de alguns mitos que nos foram ensinados nas escolas. Os outros dois trata da independência do Brasil e o terceiro da chegada da família real no Brasil. Em todos, uma visão iconoclasta dos fatos ali narrados. Conclui-se então que o brasileiro está interessado nos fatos reais, não naqueles edulcorados que nos foram repassados por professores indolentes, segundo a versão sancionada pelo MEC de sucessivos governos.
Somos nordestinos, baianos do Polígono das Secas, dominados por uma política clientelista onde ainda vige a república dos coronéis. Isso é tanto verdade que Morro do Chapéu cultua e até ergueu estátua para o seu mais famoso coronel. Aqui neste sertão as verdades estabelecidas não podem ser contestadas. Não podem e não devem. Experimente fazer uma crítica, minimamente que seja ao coronel Dias Coelho para ver a enxurrada de protestos que surgirá. Toda cidade precisa de um mito, de um herói a ser cultuado, já que a cota de heróis atuais parece ter se esgotado. O futuro é de total desesperança neste aspecto.
Enquanto a história do Brasil está sendo desmistificada, a nossa continua rígida e imutável. Nada menos do que quatro municípios da Chapada Diamantina comemoram suas emancipações em datas erradas, a saber: Jacobina, Morro do Chapéu, Irecê e Xique Xique. Tudo porque quando foram emancipados receberam a denominação de Vila. E vila, cidade, distrito, termo, comarca são denominações que deixam nossos pesquisadores em completa confusão. Num dos blogs aqui de nossa cidade, diz-se que Irecê comemora hoje sua data de elevação a cidade. Não é. Hoje Irecê comemora sua RESTAURAÇÃO a município.
Assim como a de Morro do Chapéu, tudo na história de Irecê está errado. Diz-se que ele foi elevado a categoria de distrito em 1906 quando na verdade isso ocorreu em 1910. Em 1926 Irecê foi DESMEMBRADO de Morro do Chapéu elevado que foi a categoria de município. Agora que vem a confusão: elevado a categoria de município com a denominação de Vila? Isso mesmo. Vila era a SEDE do município e não o município todo. Até 1938, todo município criado tinha sua sede com a denominação de Vila. Antigamente o município tinha que satisfazer certas exigências para que sua SEDE fosse elevada a condição de CIDADE. A partir de 1938, por decreto do presidente Getulio Vargas, todos os municípios tiveram suas sedes elevadas a categoria de cidade. Veja que todos os municípios que foram desmembrados de Irecê, já tinham suas sedes como cidade. E agora que vem a data totalmente ignorada pelos ireceenses: Irecê passou a categoria de cidade em 30 de março de 1938.
Está difícil o entendimento?  Adiante.
Em 1931, não só Irecê como uma vasta relação de municípios voltaram a pertencer a seus territórios de origem. Mas preservaram sua área de quando passaram a município, tendo como administrador um sub-prefeito. Em 1933, por interesses políticos do governador Juracy Magalhães todos os municípios supressos recuperaram  sua independência. E é essa data que querem nos impingir ignorando as administrações de Aristides Rodrigues Moitinho e Teotonio Marques Dourado Filho, intendente e prefeito que foram em 1926/1927 e 1927/1931. Trata-se de um esbulho que ficará eternizado, vez que o prefeito (ironicamente um Dourado) resolveu oficializar a data.
Irecê é um caso perdido.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A história de Irecê que ainda não foi contada.

Se esperança havia ainda de se estabelecer a verdadeira data da emancipação política de Irecê, bem como sua elevação a categoria de cidade, essa esperança foi para o brejo com a publicação do livro “A saga dos imigrantes, histórias de sucesso”, onde Joacy Nunes Dourado, atual prefeito de Irecê é apresentado como um dos maiores prefeitos que o município já teve, perdendo apenas para o ex-prefeito Adalberto Lélis. Se o Adalberto Lélis modificou a data de emancipação política de Irecê em troca de generosas páginas em um livro publicado por um certo empresário, agora então é que a data errada vai se solidificar graças aos rasgados elogios ao atual prefeito de Irecê. Como se sabe, o político é altamente sensível a elogios. Notadamente se faz referência à sua administração como prefeito, deputado, governador, presidente, etc. etc.
Um dia em conversa com Joacy, ele admitiu que a data de 31 de maio era a de    restauração de Irecê como município e não a de emancipação. Mas, como fez questão de observar, não queria se meter nesta briga. Mas por que ele não queria se meter? Porque ele já tinha dado seus dados biográficos para um certo empresário e sabia que o livro “A saga dos imigrantes” na qual sua figura seria encaixada em “histórias de sucesso” já estava em andamento. Com esse exemplo e muitos outros vejo pesaroso que Irecê se tornou um lugar profundamente prosaico, paroquial, onde um arremedo de sociedade tenta manter aquele dinamismo tão característico que marcou Irecê em seu desenvolvimento.                     
 Depois do surgimento das rádios Irecê FM, Caraíbas FM e Regional, de poetas dos mais diversos matizes, jornais bissextos como Veja o Sertão, Jornal de Notícias, Folha da Bahia, etc. a sociedade ireceense perdeu o hábito de raciocinar, essa atividade humana que é uma das mais difíceis de se praticar. E por que parou de raciocinar? Porque esses órgãos de comunicação já dão os fatos já comentados e analisados. Os locutores das rádios locais são os maiores sábios que a espécie humana já teve o privilégio de conhecer, pois eles sabem de tudo. Não há assunto ou área específica do conhecimento humano que eles não se metam a comentar e tirar conclusões. Há elogios, muito elogios. Tudo visando tirar alguma merreca do bolso dos incautos.
   Mas, parodiando Raul Seixas, eu resolvi ser a mosca na sopa dessa gente. Durante anos desejei que surgisse no horizonte turvo de Irecê, um político que fosse antagonista de Adalberto Lélis, que tivesse a coragem de enfrentá-lo num debate. Quando Joacy foi eleito, confesso que alimentei grandes esperanças nesse sentido. Afinal, Joacy é parente de Teotônio Marques Dourado Filho, o primeiro prefeito de Irecê que foi responsável pela emancipação política do município. Seria o resgate da história do município  e a colocação do nome da família Dourado no lugar que sempre lhe pertenceu. Mas, contra todas as previsões, Joacy recuou preferindo glorificar o nome da família Lélis, virando as costas para sua família. Joacy dera o nome de João José da Silva Dourado à rodoviária que construíra em seu primeiro mandato, dando-nos esperança que continuaria nesta linha, resgatando o nome daqueles que construíram a história do município de Irecê. Todavia, a história demonstra que um político só age quando há mobilização popular fazendo-lhe pressão.
 As páginas elogiosas do livro “A saga dos imigrantes” paralisou seu raciocínio, engessou sua coragem, se é que a teve algum dia, aprisionou-o na confortável cela da auto-complacência, em suma, Joacy foi acuado convicto de que foi um grande prefeito.
E agora temos José Dourado das Virgens e o horizonte se define desolador como todos os outros que o antecederam. A data vai ser comemorada novamente de quando foi restabelecido o município e não quando foi criado. E soubemos que esta data agora passa a ser a oficial. Isso prova que nenhum membro da família Dourado chegou a se ombrear a Teotônio Marques Dourado Filho por sua coragem e determinação. Pela vontade de Joacy Nunes Dourado e José Dourado das Virgens, Irecê continuaria para sempre subordinado a Morro do Chapéu.
A propósito: teria algum deles a coragem de enfrentar um poderoso coronel como Francisco Dias Coelho? E logo depois Antonio de Souza Benta, após seu falecimento? O propósito deste blog é regatar a história desses bravos heróis que lutaram sem tréguas  para emancipar Irecê politicamente. E essa história que alguns querem manter no esquecimento, é a que vamos contar.